Como muitos dos judeus não ortodoxos no Brasil, meu pai e meu avô vieram para o País fugidos da Alemanha após a ascensão nazista e se fixaram em São Paulo. Mas minha família era o que eu poderia qualificar de judeus
light, pois a tradição estava presente em nosso dia-a-dia, mas não de forma muito arraigada. Acontece que, mesmo nesse contexto mais liberal, aos 10 anos de idade acabei causando um alvoroço tremendo em casa.
Na época, eu apenas estava judeu, sem nenhuma ligação ideológica com a crença, ao mesmo tempo em que era preparado para fazer o bar mitzvá - ritual judaico a que são submetidos os meninos ao completar 13 anos de idade. Enquanto isso, todos os meus amigos eram católicos e estudavam para fazer a primeira comunhão: iam para a tal da catequese, para a tal da missa - e eu, não. Então, mais por desejo de pertencer à turma do que por questões espirituais, cheguei em casa e disse: "Quero ser católico."A notícia, claro, causou um terremoto. Meu pai foi totalmente contra, mas minha mãe acabou me apoiando e conseguiu convencer o padre da paróquia do bairro de que havia um judeuzinho que queria ser católico. Em suma, minha vontade acabou prevalecendo: aos 12 anos, fui batizado e fiz a primeira comunhão.
Logo depois de minha conversão, freqüentava a missa todos os domingos, mas já percebia que havia entrado em uma verdadeira sinuca de bico - sem volta. Após meu batismo, descobri que muitos de meus amigos estavam apenas cumprindo um ritual burocrático, sem nenhum viés religioso ou espiritual. Assim, durante anos, passei as manhãs de domingo sentado na igreja, tentando compreender o que acontecia lá dentro: o que representava aquele altar, aquela celebração etc.
Eu passava por esse período de questionamento de minha nova fé quando Nilsinha, minha irmã de criação, faleceu em um brutal acidente de automóvel: ela voltava de uma festa, à noite, quando um carro de polícia atravessou o sinal vermelho, chocando-se com o de Nilsinha, que morreu na hora. Foi um evento terrível, que me deixou sem entender nada.
Minha primeira reação foi procurar um rabino, mas isso não ajudou. Fui então atrás do mesmo padre que havia me apoiado na conversão ao Catolicismo, mas também não encontrei o que procurava. Foi nessa busca por conforto e compreensão, por fim, que me deparei com um livro de Chico Xavier. Já havia visto algumas de suas obras, sem prestar atenção. Era algo que não fazia o menor sentido para mim. No entanto, naquele momento de crise aguda pela morte de Nilsinha, os textos de Chico Xavier pareciam ter sido escritos para mim. Era como se eu já soubesse a lógica por trás daqueles ensinamentos. Finalmente, encontrava as repostas que procurava.
A princípio adotei a prática espírita do evangelho no lar, com leituras, discussões e estudos. Depois senti necessidade, também, de me aproximar mais das pessoas, e realizei atividades paralelas, como meu engajamento no desenvolvimento da Vila Serena, entidade assistencial voltada para o tratamento de dependentes químicos. Em 1999, ainda, consegui uma pausa no turbilhão da vida profissional como executivo para realizar um antigo sonho: percorrer o Caminho de Santiago - caminhei 900 quilômetros, numa experiência intensa de crescimento, autoconhecimento, emoções...
Sei que minha trajetória - um judeu convertido ao Catolicismo que depois se torna espírita - incomodou, e ainda incomoda, muita gente. Mas sinto que estou numa missão de provocar, de fazer as pessoas pensarem. Não recebi nenhuma mensagem, ou algo assim, mas percebo isso no fundo do meu coração. A propósito, incomodar para mim é ir a uma igreja, na comemoração de aniversário do banco em que trabalhei, e deixar perplexo um vice-presidente que estava a meu lado e se pergunta: "O que um judeu espírita faz em uma igreja católica? Esse cara não deve ter entendido nada..." Não faz mal... eu o fiz pensar.
Partilha
Livros
Sabático - Um Tempo para Crescer, de Herbert Steinberg. Editora Gente, 2000
*Espírita, o executivo Herbert Steinberg nasceu em uma família judia e tornou-se católico antes de adotar o Espiritismo.
É fundador da empresa de consultoria Mesa Corporate Governance