O mais passional dos místicos
Poeta, muçulmano e sábio, Rûmi deixou-se arrebatar pelo Divino e tornou-se exemplo de entrega incondicional ao amor de Allah e de uma vivência plena da própria espiritualidade
Por José Tadeu Arantes
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"Venha. Venha outra vez. Seja você quem for, venha!/ Pagão, adorador do fogo, idólatra, venha!/ Venha, mesmo que por cem vezes você tenha quebrado sua penitência!/ Nosso é o portal da esperança. Da maneira como você é, venha!" O homem que escreveu estas palavras não era um muçulmano convencional. No entanto, seguidores fervorosos da fé islâmica o reverenciam como santo e sábio. O amplo círculo de seus discípulos reunia judeus, cristãos, muçulmanos e adeptos de outras religiões. Desde o século 13, seu túmulo na Turquia é um dos centros de peregrinação do mundo islâmico. Considerado um dos pilares do Sufismo, o núcleo místico do Islã, recebeu do próprio pai o título de maulana, que significa "nosso mestre". A ele é atribuída a criação da famosa dança giratória dos dervixes e a autoria de alguns dos mais apaixonados poemas da literatura espiritual. Exemplo supremo do místico passional, inebriado e quase enlouquecido pelo amor divino, ele conseguiu alcançar a sobriedade que sucede a embriaguez. Maulana Jalal ud-Din Rûmi, um dos maiores poetas da literatura persa, nasceu em 30 de setembro de 1207, na aldeia de Waksh, atualmente no território do Tadjiquistão, na Ásia. E morreu em Konya, na Turquia, no dia 17 de dezembro de 1273. Era ainda um adolescente quando a iminente invasão das hordas mongólicas, chefiadas pelo terrível Gengis Khan, obrigou sua família a emigrar. Sob o comando de seu pai, Baha ud-Din Walad, teólogo ilustre e renomado mestre sufi, o jovem e seus parentes perambularam durante cinco anos. Nesse período, Rûmi casou-se com a jovem Gowhar Katun e cumpriu sua peregrinação ritual a Meca. Ao passar por Nishapur, na Pérsia, visitou, em companhia do pai, o célebre mestre sufi e poeta Farid ud-Din Attar. Conta a tradição que Attar reconheceu de imediato a estatura espiritual de seu jovem visitante e, maravilhado com sua grandeza, abençoou a luz daquele dia, afirmando que era a primeira vez que via um lago (o pai, Baha ud-Din) ser seguido pelo oceano (o filho, Jalal ud-Din). Em 1228, a família fixou-se finalmente em Konya, na região da Anatólia, hoje pertencente à Turquia. Esse território era então conhecido pelo nome de Rum, do qual se originou a alcunha Rûmi, atribuída ao poeta. A convite do sultão, Baha ud-Din assumiu a cátedra de teologia na madrassa (escola religiosa) da cidade. Com o pai, Rûmi estudou mística, teologia, jurisprudência e literatura. E tão notáveis foram seus progressos intelectuais que, apesar de ter apenas 24 anos quando Baha ud-Din morreu, foi imediatamente convidado a suceder-lhe. Para completar seu treinamento na difícil senda do Sufismo, aceitou, por uma década, a tutela espiritual de um antigo discípulo de seu pai. Durante esse período, passou mais de quatro anos em Alepo e Damasco, na Síria, onde parece ter-se encontrado várias vezes com Ibn'Arabî, um dos grandes místicos do Islã (leia perfil na edição 3).
Encontro espiritual
Quando o treinamento terminou, Rûmi havia alcançado o status de instrutor sufi. Chefe de família, cercado por centenas de discípulos e cumulado de honrarias, seu futuro parecia perfeitamente definido. Foi nesse majestoso platô da existência que um acontecimento extraordinário provocou uma completa reviravolta em sua trajetória. Era o dia 28 de novembro de 1244. Coberto por um turbante tão imponente quanto sua reputação, Rûmi, então com 37 anos, cavalgava para a madrassa à frente de um séquito de estudantes. Ao passar diante de uma pousada de caravanas, um desconhecido, trajando o manto de lã preta característico dos dervixes, postou-se à sua frente. E, antes que o ilustre professor pudesse esboçar qualquer reação, fulminou-o com uma pergunta: "Tu, que és o grande conhecedor de teologia e das Escrituras, responde-me: quem é maior, o Profeta Muhammad ou Bayazid Bistami (mestre sufi do século 9)"? A questão parecia um completo disparate. E o professor respondeu-a da maneira mais convencional possível: "Muhammad foi, sem dúvida, o maior de todos os santos e profetas". "Se é assim", replicou o dervixe, "por que Muhammad disse: 'Não te conhecemos, Senhor, como deves ser conhecido', enquanto Bayazid exclamou 'Glória a mim! Imensa é minha glória! Pois não há nada senão Deus em cada partícula do meu ser'?" O desconhecido havia tocado no ponto nevrálgico de toda a mística: a unidade essencial entre o homem e Deus. O impacto de sua afirmação foi tamanho que Rûmi caiu desmaiado. Ao recobrar a consciência, tomou o forasteiro pela mão e entrou com ele na madrassa. Juntos permaneceram trancados durante 40 dias, sem que ninguém se atrevesse a perturbá-los. O homem que causou tanta impressão em Rûmi é um dos personagens mais enigmáticos da história da espiritualidade. Ficou conhecido pelo nome Shams ud-Din Tabrizi (Sol da Religião de Tabriz). Errante e solitário, recebeu também a alcunha de Parinda ("Pássaro"), por estar sempre flanando pelo mundo. Anticonvencional até o limite da insolência, demolia as convicções de seus mais ilustres interlocutores com frases mordazes. Ao mesmo tempo, era capaz de passar por uma cidade em perfeito anonimato, vestido com seu surrado manto de lã preta, sem que ninguém suspeitasse de sua magnitude espiritual. Tinha entre 45 e 65 anos quando se encontrou com Rûmi. No Maqalat Shams-i Tabrizi (Discursos de Shams de Tabriz, sem tradução para o português), única obra em que foram compilados seus ensinamentos, Shams revela que fora discípulo do sheik Abu Bakr, de Tabriz, na Pérsia. "No entanto, havia em mim algo que meu mestre não pôde ver. De fato, ninguém era capaz de vê-lo. Mas Maulana o viu", disse, referindo-se a Rûmi. "Eu era água estagnada, fervendo e entornando-me sobre mim mesmo e já começando a cheirar mal, até que a existência de Maulana me encontrou. Então, aquela água começou a correr e continua correndo - doce, fresca, saborosa." As palavras de Rûmi a respeito do andarilho não são menos veementes: "Eu estava cru. Depois fui cozido. E, enfim, consumado". O intercâmbio espiritual entre Rûmi e Shams seguiu muito além da relação convencional de discípulo e mestre. Foi a rara confluência de dois místicos da mais alta estatura, a que os sufis se referem como "o encontro dos dois oceanos". Rûmi já era um homem de conhecimento e santidade, mas necessitava do impacto da personalidade ígnea de Shams para maturar toda a sua potência espiritual e transformá-la em ato. Shams, por seu lado, era puro fogo e precisava de alguém capaz de suportar o ardor de sua presença e dar um destino útil àquilo que, de outra forma, teria sido essencialmente destrutivo.
Enfim, a percepção
Pelas mãos de Shams, Rûmi transitou, como dizem os sufis, "da mesquita à taverna" - o que significa que transcendeu a religiosidade convencional para alcançar a experiência direta do Divino. E ele vislumbrou Deus por trás das feições do avassalador dervixe, a quem passou a devotar um amor exclusivo e ilimitado. A percepção da Divindade, essencialmente sem forma, personificada não é um fato raro na história da espiritualidade. No Cristianismo, a manifestação por excelência do Divino é o Cristo encarnado. No Hinduísmo, ela se dá por meio de Krishna e outros avatares. Inebriado pela presença de Shams, Rûmi não tinha olhos e ouvidos para mais ninguém. "Quando Shams chegou", afirmou, "senti acender em meu coração uma poderosa chama de amor por ele. E ele deliberou comandar-me de modo despótico e definitivo. Shams me disse: 'Deixa, de uma vez por todas, de ler as palavras de teu pai'. Obedeci à sua ordem e, desde aquele momento, nunca mais as li. Em seguida, ordenou-me: 'Guarda silêncio e não te dirijas a mais ninguém'. Cortei, então, todo contato com meus discípulos. Meus pensamentos eram o néctar de meus discípulos. E eles sofreram, por isso, fome e sede. Surgiram, então, sentimentos negativos entre eles. E uma praga caiu sobre meu mestre." A desgraça a que ele se refere consumou-se em duas etapas. Na primeira, acossado pelo ciúme doentio alimentado pelos discípulos, Shams desapareceu sem deixar vestígio. No ápice do desespero, Rûmi encontrou-o em sonho, jogando dados em uma taverna de Damasco. E mandou seu filho primogênito trazê-lo de volta. Na segunda, o ressentimento dos preteridos foi ainda mais longe. Tendo à frente outro filho de Rûmi, que recitava o versículo do Corão que diz "Ele não é de teu povo", os enciumados lançaram-se sobre o dervixe na calada da noite, mataram-no a punhaladas e atiraram seu corpo no fundo de um poço. Quando soube ou pressentiu o que havia ocorrido, Rûmi mergulhou em uma dor sem limites. É difícil traduzir em palavras a imensidão de seu pesar. Para suportar o sofrimento, desenvolveu o sama, a dança giratória dos dervixes, em que os praticantes rodopiam em torno de seus próprios eixos, ao mesmo tempo que transladam em torno de um eixo maior e invisível, situado no centro do grupo. Com estas tocantes palavras, o primogênito de Rûmi, Sultan Walad, descreve a experiência de seu pai naquele tempo de luto: "Noite e dia, em êxtase, ele dançava./ Na terra girava, como giram os céus./ Rumo às estrelas, lançava seus gritos./ E não havia quem não os escutasse". O sama tornou-se a prática espiritual característica dos sufis da Ordem Mevlevi, fundada pelo próprio Sultan Walad. Girando sem parar, enquanto recitam interiormente a frase Lâ ilâha ill'Allâh ("Não há deus senão Deus"), os dervixes alcançam patamares cada vez mais elevados de consciência, até atingir o estado em que afirmam encontrar a Divindade "face a face". Em seu êxtase, Rûmi recitava poemas, que os discípulos anotavam às pressas. Assim nasceu a maior parte da coletânea Divã de Shams de Tabriz, que, juntamente com as obras Masnavi e O Livro do Interior, constituiu a grande trilogia da obra literária de Rûmi. À custa de muito sama e recitação, o místico conseguiu finalmente aplacar sua dor e ancorar o Amado dentro de si. Quando Rûmi e Shams se tornaram "um", o poeta transformou-se em mestre consumado do caminho ao Sagrado. O homem de Deus procura e encontra.
O poeta persa Rûmi é hoje considerado um dos pilares do Sufismo, o núcleo místico do Islã
O homem de Deus (Um poema de Rûmi, do Divã de Shams de Tabriz)
O homem de Deus está ébrio sem vinho, O homem de Deus, saciado sem pão. O homem de Deus está apaixonado, arrebatado, O homem de Deus não come nem dorme. O homem de Deus é um rei sob andrajos, O homem de Deus, um tesouro entre ruínas. O homem de Deus não é da terra ou do ar, O homem de Deus não é do fogo ou da água. O homem de Deus é um oceano sem praias, O homem de Deus chove pérolas, sem nuvens. O homem de Deus traz cem luas e cem céus, O homem de Deus possui a luz de cem sóis. O homem de Deus tornou-se sábio pela Verdade, O homem de Deus não se fez erudito nos livros. O homem de Deus está além da fé e da incredulidade, Para o homem de Deus, que pecado ou virtude existe? O homem de Deus cavalgou para fora do não-ser, O homem de Deus acercou-se com porte sublime. O homem de Deus está oculto, ó Shams ud-Din! Procura e encontra o homem de Deus.
(Versão de José Tadeu Arantes, a partir da célebre tradução francesa de Eva de Vitray-Meyerovitch)
Rûmi desenvolveu o sama, a dança giratória dos dervixes, para curar a dor pela distância de Allah. Rodando sem parar, os dervixes atingem estados elevados de consciência e encontram Deus
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Livros:
Poemas Místicos (Divã de Shams de Tabriz), de Rûmi, tradução e introdução de José Jorge de Carvalho, Attar Editorial, 1996 Fihi-Ma-Fihi (O Livro do Interior), de Rûmi, Edições Dervish, 1993
Sites:
www.mevlana.net www.sufism.org www.khamush.com
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